Por outro lado, Aziz aponta que as pessoas que orientaram o chefe do Executivo devem também ser responsabilizadas.
Qual o balanço que o sr. faz dos depoimentos após essas duas semanas? Nós chegamos em um momento que, pelas informações que colhemos, poderíamos ter tido vacina bem antes do planejado e uma quantidade bastante grande.
A carta e as informações prestadas pela Pfizer foram o maior avanço na comprovação de omissões do governo? Acho que avançamos muito. O pior é que a carta endereçada pela Pfizer não foi só ao presidente. Mas muita gente do poder mesmo, do alto escalão do governo, recebeu essa carta e a gente não entende por que nenhum deles se prestou a dar uma ligada, mandar alguém procurar saber a oferta das vacinas.
Isso foi em agosto, [então veio] setembro, outubro, novembro. Se tivéssemos feito isso em agosto, em dezembro nós teríamos começado a vacinar as pessoas. Nós estamos agora no dia 14, 15 de maio, quer dizer, olha só o que nós perdemos de tempo na vacinação. Então avançamos nesse sentido.
Após esse período de trabalhos de investigação e de depoimento, o que já está provado? Que não houve nenhum interesse na compra da vacina no primeiro momento, que se apostou muito na imunização de rebanho e kit cloroquina, ivermectina. E hoje mesmo eu recebo uma matéria [sobre] um cara chamado Hélio Angotti Neto, chefe da área de ciência, tecnologia, inovação e insumos, no dia 27 de julho de 2020, defendendo a cloroquina. Esse cara vai ser chamado para depor. Isso é muito sério.
O STF não deveria ter concedido o habeas corpus para permitir que o general Eduardo Pazuello (ex-ministro da Saúde) se cale [ao falar sobre si mesmo] durante o depoimento? Não, é lógico que não. Acho que o ex-ministro Pazuello é a pessoa que pode nos dar mais informações, porque começou com ele. Veja bem, quando a Pfizer procura o Brasil, ele foi uma das pessoas que recebeu a carta. Por que não respondeu? Deram ordem pra ele não responder? É isso que queremos saber. Não era política do Ministério da Saúde adquirir vacina?
O sr. fala que o governo não teve interesse na vacina, mas apostou, por exemplo, na cloroquina. Esse foi um dos erros do governo Bolsonaro? Esse é o erro. Não apostar na ciência. O governo errou desde o primeiro momento. Não apostou no isolamento, nao apostou na máscara, no álcool em gel, na vacina, uma série de coisas que poderiam ter ajudado a salvar pessoas. E continuam apostando na cloroquina.
Vocês perguntam "essa CPI vai dar em pizza?" A massa que está sendo feita não é da pizza não. Tem que pegar do início. Omissão do governo e os problemas que aconteceram no estado do Amazonas. O próprio Ernesto [Araújo, ex-ministro de Relações Exteriores] tem telegramas que a Folha publicou procurando cloroquina. Eu quero saber quantos telegramas ele mandou atrás de vacina.
Durante os depoimentos, apontaram tentativa de interferência na questão da cloroquina, o comportamento pessoal do presidente foi criticado e há a história da negligência por meses para adquirir vacinas. Podemos dizer que há digital do presidente? Não posso falar isso, dar essa opinião, porque estaria sendo prematuro e fazendo pré-julgamento. Acho que temos que trabalhar muito ainda para que se possa ver realmente sobre o que o presidente tomou conhecimento, quais foram os aconselhamentos. Eu digo isso porque eu já fui governador. Você faz autocrítica nos seus pensamentos, não tem jeito, ninguém é dono da verdade. Você se aconselha com pessoas especialistas em áreas. Mas, às vezes, com a pessoa errada.
O fato de o presidente ter se aconselhado com pessoas erradas exime a responsabilidade dele? Veja bem, sempre falo uma coisa: você pode errar por omissão e você pode errar por obediência. Eu acho que não dá pra eximir. Eu acho que nós fomos na contramão do mundo. Você não viu uma liderança mundial pregando imunização de rebanho, pregando cloroquina. Você viu todos os líderes mundiais aprovando e apoiando o lockdown.
Então um dos problemas é esse aconselhamento paralelo, que a CPI vem chamando de ministério paralelo? Esse alguém é tão culpado como ele. Você pode ser induzido ao erro. Agora, todos nós, seres humanos, mesmo induzidos ao erro, cometendo o erro, a gente pode fazer autocrítica, principalmente o chefe da nação.
Mas ele não fez... Veja bem, não fez em alguns pontos, como aglomeração, usar a máscara, que isso até desmoraliza o ministro da Saúde dele. Por isso que eu disse, olha, o Marcelo Queiroga [Saúde] está gastando dinheiro com propaganda à toa. Não precisa gastar dinheiro com propaganda, pedindo para usar máscara, não fazer aglomeração, usar álcool em gel. Porque o maior propagandista do Brasil, que deveria apoiar essas campanhas de universidade da saúde, faz o contrário. É esse apelo que faço ao presidente. Que possa, nesse momento, pelo menos apoiar uma campanha do governo dele, apoiar o ministro da Saúde.
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