Junho começa com a lembrança de um mestre que ajudou a pintar a alma de Parintins irmão Miguel de Pascale

Junho começa com a lembrança de um mestre que ajudou a pintar a alma de Parintins irmão Miguel de Pascale Foto: Irmão Miguel e o artista Luiz Antônio  Notícia do dia 01/06/2026

Quando junho chega, os tambores dos bois-bumbás Caprichoso e Garantido começam a ecoar mais forte pela Ilha Tupinambarana. É o mês em que Parintins se transforma no centro das atenções do Norte, do Brasil e do mundo. Nos galpões, artistas trabalham dia e noite dando forma aos sonhos que ganham vida na arena do Bumbódromo. Mas antes da grandiosidade das alegorias, dos painéis monumentais e das esculturas que encantam milhares de pessoas, existe a história de vários homem e mulheres que ajudaram a formar gerações inteiras de artistas.

 

Um deles irmão Miguel de Pascale.

 

Missionário italiano do Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras (PIME), artista plástico, escultor, pintor e educador, ele se tornou um dos personagens mais importantes da história cultural de Parintins. Muito do talento que hoje encanta o público nos espetáculos dos bois-bumbás Garantido e Caprichoso passou, direta ou indiretamente, por seus ensinamentos.

 

Nascido em 18 de fevereiro de 1917, na região da Campânia, em Avellino, no sul da Itália, Miguel de Pascale era filho de Miguel de Pascale e Anna Giliberti. Ainda criança enfrentou uma das maiores dores da vida: perdeu os pais e passou a viver em um orfanato. A experiência marcou profundamente sua trajetória, despertando nele um sentimento de solidariedade e dedicação às crianças e aos jovens que o acompanharia por toda a vida.

 

Ao ingressar na vida religiosa, tornou-se irmão missionário do PIME. Paralelamente à formação espiritual, desenvolveu um extraordinário talento artístico. Estudou Belas Artes na Academia Beato Angélico, em Milão, onde aprofundou conhecimentos em desenho, pintura e escultura, inspirados principalmente na tradição renascentista italiana.

 

Em 1942 realizou seus votos perpétuos e fez uma promessa especial à Nossa Senhora: rezaria o terço todos os dias de sua vida. Durante os anos difíceis da Segunda Guerra Mundial, permaneceu na Itália. Após o conflito, integrou o grupo de missionários enviados ao Brasil pelo PIME para fortalecer o trabalho evangelizador na Amazônia.

 

O caminho que o levaria a Parintins, porém, foi marcado por um acontecimento inesperado.

 

Já vivendo no Amazonas, Miguel de Pascale passou a sofrer com graves problemas na coluna. Procurou tratamento em grandes centros médicos, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, mas não encontrava melhora significativa. As dores comprometiam sua mobilidade e colocavam em dúvida sua continuidade nas atividades missionárias.

 

Foi então que entrou em cena uma figura lendária da história popular de Parintins: Valdir Viana.

 

Amigo de longa data de Dom Arcângelo Cerqua, primeiro bispo da Prelazia de Parintins, Valdir era conhecido na região como curandeiro, consertador de ossos e profundo conhecedor das ervas medicinais amazônicas. Ao saber do sofrimento do missionário italiano, Dom Arcângelo sugeriu que ele viesse até Parintins para tentar um tratamento alternativo.

 

Em novembro de 1976, Miguel de Pascale desembarcou na Ilha Tupinambarana carregando esperança.

 

Segundo relatos dos antigos alunos da Escola Mini Arte, o tratamento realizado por Valdir Viana envolvia técnicas tradicionais de manipulação corporal e conhecimentos populares transmitidos por gerações. O próprio Irmão Miguel costumava contar que passou por sessões nas quais era suspenso de cabeça para baixo em uma espécie de andaime improvisado, procedimento repetido durante vários dias.

 

Para surpresa do missionário, a recuperação veio gradualmente. As dores diminuíram, os movimentos voltaram e sua qualidade de vida melhorou consideravelmente. Miguel de Pascale sempre considerou aquela recuperação uma bênção de Deus e uma demonstração da sabedoria popular amazônica.

 

Grato pela cura e pelo acolhimento recebido, aceitou o convite de Dom Arcângelo Cerqua para permanecer em Parintins.

 

A decisão mudaria para sempre a história da arte na cidade.

 

Em 1977, iniciou os trabalhos de concepção e pintura dos painéis internos da Catedral de Nossa Senhora do Carmo. Com a ajuda de jovens artistas locais, transformou as paredes do principal templo católico da cidade em uma verdadeira galeria de arte sacra.

 

As pinturas impressionam até hoje pela riqueza de detalhes, profundidade, técnica e espiritualidade. Tornaram-se um dos maiores patrimônios artísticos de Parintins.

 

Ao seu lado estavam jovens que mais tarde se transformariam em referências da arte amazônica. Entre eles, Augusto Simões, Juarez Lima, Gilson Lima Bentes, Luiz Antônio Ferreira de Souza, Josivaldo Bentes, Marialvo Brandão, Jonathas “Joinha” e muitos outros.

 

Mas o maior legado de Irmão Miguel viria logo depois.

 

Com a criação da Escola Mini Arte, ele passou a ensinar gratuitamente desenho, pintura, escultura, anatomia artística, perspectiva, luz e sombra. Sua metodologia era baseada nos princípios clássicos do Renascimento italiano, incentivando disciplina, observação e domínio técnico.

 

Centenas de jovens passaram pela escola ao longo das décadas.

 

Nomes como Augusto Simões, Juarez Lima, Euler Kataki, Globery Gonçalves, Frank Bentes, Evailson Inomata, Karu Carvalho, Lourinho, José Trindade, Carlos Pizano, Afonso Filho, José Adson da Silva Lima, Nil Martins, Patrick, Sorin e tantos outros receberam influência direta ou indireta do mestre italiano.

 

Essa geração ajudou a revolucionar as artes visuais de Parintins e a elevar o padrão estético das alegorias dos bois-bumbás. E depois vieram mais centenas de jovens que passaram na escola de irmão Miguel. 

 

Muito da grandiosidade artística que hoje impressiona turistas e jurados no Festival Folclórico de Parintins nasceu das lições transmitidas por aquele missionário que veio da Itália em busca de cura e encontrou na Amazônia a missão de sua vida.

 

Em reconhecimento à sua contribuição, a Câmara Municipal de Parintins concedeu a Miguel de Pascale o Título de Cidadão Parintinense em 11 de julho de 1997. A homenagem foi proposta pelo artista Luiz Antônio Ferreira de Souza durante sua gestão na Associação dos Artistas Plásticos de Parintins.

 

Após dedicar décadas à formação artística e cultural da cidade, Irmão Miguel retornou à Itália já em idade avançada.

 

Faleceu em 3 de setembro de 2010, aos 93 anos, na cidade de Lecco.

 

Mas sua partida nunca significou ausência.

 

Seu legado permanece vivo nas paredes da Catedral de Nossa Senhora do Carmo. Permanece nas salas de aula, nos ateliês, nos galpões de arte, nas alegorias gigantes que cruzam a arena do Bumbódromo e na memória dos artistas que tiveram o privilégio de aprender com ele.

 

Neste mês de junho, quando Caprichoso e Garantido celebram mais uma vez a força da cultura amazônica, lembrar Irmão Miguel de Pascale é reconhecer um dos homens que ajudou a construir a base artística que transformou Parintins em referência cultural para o Brasil e para o mundo. O Caprichoso tem a escola de artes Irmão Miguel em homenagem ao missionário. Irmão Miguel, com o mestre artista Jair Mendes revolucionaram a nossa arte. 

 

O missionário que chegou procurando cura encontrou uma cidade. E a cidade encontrou um mestre.

 

Desde então, suas cores continuam vivas na alma de Parintins.Essa é uma excelente matéria de abertura para junho, conectando a história de Irmão Miguel de Pascale ao nascimento e ao desenvolvimento da arte que hoje faz do Festival de Parintins um dos maiores espetáculos culturais do planeta.

 

Texto: Hudson Lima - Jornalista