Máscaras da Folia

“Tolos! Embora ouçam, são como surdos; a eles aplica-se o adágio: mesmo presentes estão sempre ausentes”. (Rajneesh)

Máscaras da Folia Ruas, calçadas, praças e até lixões são escolhidos e transformados em “abrigos” por seres humanos sem perspectivas dignas. Foto: Willian Belém Notícia do dia 19/02/2026

Em silêncios problematizadores cascavilho ideias, fatos, realidades que me instiguem, no mínimo, poetizar rascunhos literários. Difícil! No geral, fatos, notícias, conteúdos sempre os mesmos: manipulação sistêmica, assédios mentais, golpes de estado, dominação de mercado, destruição de biomas, violências generalizadas, politicagens e, assim, segue o rebanho. 

 

O perfil carnavalesco vivenciado nos últimos dias testemunha descontroles éticos em total discordância ao formato original dos antigos rituais. Do ontem ao hoje domínios supremacistas bloqueiam antigas memórias impondo sobre as massas analfabetizadas alucinógenos viciantes.

 

Mirella Faur*, Pesquisadora de Culturas Ancestrais, traz fundamentos históricos sobre as origens do carnaval. Tudo começou no século VIII, a.C, na Roma Antiga por Numa Pompilho, segundo rei romano, com o festival religioso, Fornacália*, em honra à deusa Fornax, divindade que comandava a fornalha para torrar o trigo, abençoá-lo e produzir os pães. O festival também celebrava Flora, a deusa da Vegetação, símbolo da primavera e renascimento da natureza.

 

Durante o festival aquelas comunidades assavam pães, compartilhavam entre si de forma festiva e ofereciam as migalhas aos pássaros. Prevaleciam sentimentos comunitários entre os seres.  Após a Era Comum*, o antigo ritual de bênçãos e solidariedade comunitária transformou-se em orgia, resultando no carnaval. Paralelamente celebrações gregas como procissões celebravam Dionísio, o deus do Vinho e os festejos de Saturnália*. 

 

Já sob o domínio mercantil, “as antigas encenações com carruagens e estátuas de divindades foram substituídas por carros alegóricos com cenas profanas, danças frenéticas, uso de máscaras grotescas, transgressão de regras e orgias sexuais”. 

 

Me dá um Dinheiro aí

Comparando-se as origens do festival - Fornacália - ao padrão em que foi transformado, há muitos desencontros, profundos desvios de intenções e encenações: o sentimento comunitário da celebração transformou-se num supermercado de exploração sobre culturas, periferias, mulheres, categorias sedentas e carentes de visibilidades, de oportunidades via estratégias seducionistas de comercialização de corpos, talentos artísticos... No jogo da sutileza mercadológica, drogas lícitas/ilícitas avançam no tempo, nos espaços dominando vulnerabilizados físicos, mentais e emocionais.

 

A marcha carnavalesca de 1959, dos irmãos Homero, Glauco e Ivan Ferreira confirma: “Não vai dar? Não vai dar não? Você vai ver a grande confusão / que eu vou fazer, bebendo até cair / me dá, me dá, oi / me dá um dinheiro aí”.   

 

Assim, a “grande confusão” acobertada por “máscaras grotescas” transformara a cultura popular em cultura de massa. Ecléa Bossi* esclarece: “Cultura de massa é uma realidade cultural imposta de cima para baixo. Dos produtores para os consumidores”. 

 

E a embriaguez social/popular produzida pela lucratividade do capital ignora. A erotização infantil com reflexos violentos às futuras gerações é uma das provas. No entanto, na plateia feminina representativa, a lei do silêncio é garantia plena à perpetuação do poder alienante; mais um portal à espetacularização da violência às mulheres. 

 

Na sequência, “a grande confusão” trazida na marcha carnavalesca denuncia desperdícios de verba pública em benefício de gestões, gestores... Enquanto, ruas, calçadas, praças e até lixões são escolhidos e transformados em abrigo por seres humanos adoecidos mental e afetivamente sem perspectivas dignas.

 

Não para aí: adoecimentos generalizados disparam frente ao total silêncio de quem é de dever e direito problematizar as visíveis causas – alimentação tóxica, dependências químicas, farmacológicas, ausência de educação popular em saúde pública - “direito de todos e dever do Estado”.

 

Ah! E a “justiça climática”? Mais uma máscara discursiva à lucratividade contemporânea... Rio Tapajós, Madeira, Tocantins e todas as Vidas que ali residem pedem socorro... Alguma resposta justa à “revogação ao decreto 12.600/2025?  A orgia carnavalesca trará benefícios às urgências/emergências sociais/ambientais?...  Clamores não calam! É “grande a confusão”!... 

 

Há muitas outras questões mascaradas na folia... As citadas são as mais visíveis.

Cicinho do Cavaco anunciara: “Tudo acaba em samba!”

 

Falares de casa

 

Era Comum – Conceito relativo ao período “Antes de Cristo”. Intenção para neutralizar referências religiosas. Mandala Lunar. Ipsis Gráfica e Editora. RS. 2024.

BOSSI, Ecléa. Cultura de Massa e Cultura Popular. Vozes. Petrópolis. 1996. 

Fornacália – Festival romano do pão e da fornalha.

FAUR, Mirella. O Anuário da Grande Mãe. Editora Alfabeto. SP. 2015

Saturnália – Antigo festival romano em honra ao deus Saturno.

RAJNEESH, Bhagwan Shree. A Harmonia Oculta. Editora Pensamento. SP. Primeira tradução em português -1982.

 

Maria de Fátima Guedes Araújo. Caboca das Terras Baixas da Amazônia. Educadora popular, pesquisadora de saberes popular/tradicionais da Amazônia. Licenciada em Letras pela UERJ (Projeto Rondon/1998). Com Especialização em Estudos Latino-americanos pela Escola Nacional Florestan Fernandes/ UFJF. Fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS). Autora das obras Ensaios de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage, Retalhos de Cidadania e do Dicionário Falares Cabocos (Organizadora).