Notícia do dia 12/05/2026
"Será que não é psicológico?" Essa pergunta, comum nos corredores das escolas de Manaus, Parintins e nas salas de aula das comunidades mais remotas do interior do Amazonas, é o primeiro sintoma de uma exclusão que antecede o diagnóstico. Para as professoras da rede pública que convivem com a fibromialgia, a dor não é apenas um curto-circuito neurológico — é um fenômeno político e social que atravessa rios e periferias. Como jornalista, antropóloga e fibromiálgica, escrevo a partir de um conhecimento situado. Minha dor não é um obstáculo ao rigor, mas a ferramenta que me permite acessar as "gramáticas do sofrimento" dessas mulheres que, em contextos urbanos vulneráveis ou em escolas ribeirinhas isoladas, educam enquanto o corpo queima. Minha pesquisa desloca o olhar da "doença no corpo" para o "corpo na estrutura social", mapeando como a dor se comporta diante das distâncias e da escassez.
Nas margens dos rios Amazonas e Solimões, a dor é intensificada pela precarização do trabalho e pelo acesso quase inexistente a políticas públicas de saúde especializadas. Aqui, a fibromialgia deixa de ser apenas uma síndrome biomédica para se tornar uma questão de gênero, território e logística. A invisibilidade, tão comum à dor crônica, ganha contornos de estigma quando o sistema educacional ignora as limitações de quem está na frente da sala de aula, seja em uma escola de alvenaria na capital ou em uma estrutura de madeira no interior. Se não há ferida exposta, a validade do sofrimento é constantemente posta em xeque, reforçando um silenciamento histórico sobre o corpo feminino que ensina e cuida. No entanto, o cenário mudou. Com o reconhecimento da fibromialgia como deficiência pela Lei nº 15.176/2025, inaugurou-se um campo de disputa por direitos em todo o território amazonense.

A questão agora é: como essa legislação é apropriada no cotidiano escolar das várzeas e das periferias? A transição da "invisibilidade" para o estatuto jurídico de Pessoa com Deficiência (PcD) exige que o Estado e as instituições reconheçam essa nova categoria de sujeito, especialmente onde o braço do governo é mais curto. Não basta a lei no papel; é preciso que o chão da escola entenda que a fadiga e a dor crônica são barreiras reais à produtividade padrão, desafiando a lógica de corpos sempre disponíveis. Ao privilegiar as narrativas dessas professoras amazônidas — historicamente sub-representadas na academia nacional —, este estudo busca justiça social para quem enfrenta a jornada dupla (ou tripla) sob o peso da inflamação. Sob o prisma da interseccionalidade, vemos que a dor de uma docente em Parintins ou Manaus é uma denúncia da negligência institucional e do isolamento geográfico.
É urgente fomentar pesquisas que rompam esse ciclo, pois uma das maiores violências ocorre quando entramos nos consultórios e percebemos as expressões faciais mudarem ao dizermos: “Tenho Fibromialgia!”. O que se segue é quase sempre uma receita rápida de analgésicos e a afirmação de que “pouco se sabe sobre a doença”, encerrando uma escuta que mal começou. Pesquisar sobre esse tema não é apenas um registro acadêmico; é um manifesto por políticas públicas sensíveis que alcancem as mulheres do Beiradão e das metrópoles. Mais do que mapear patologias, o objetivo é subsidiar políticas educacionais que respeitem a dignidade humana. Afinal, a resistência dessas mulheres não deveria ser uma obrigação heroica, mas um chamado urgente para que o sistema de saúde e educação finalmente as enxergue por inteiro, garantindo o direito de existir e trabalhar sem ser invisibilizada pela própria dor.
Por Carly Anny Barros; Jornalista, professora de Ensino Superior e mestra em Antropologia Social
