Tiquinhos de Esperançamentos

No dia em que as universidades aprenderem que elas não sabem, no dia em que as universidades toparem aprender as línguas indígenas – em vez de ensinar –, no dia em que as universidades toparem aprender a arquitetura indígena e toparem aprender para que servem as plantas da caatinga, no dia em que eles se dispuserem a aprender conosco como aprendemos um dia com eles, aí teremos uma confluência. Uma confluência entre os saberes. Um processo de equilíbrio entre as civilizações diversas desse lugar. Uma contracolonização. (Nego Bispo)

Tiquinhos de Esperançamentos Força ancestral/popular trouxe voz e vez a rituais, com ampla participação e interatividade entre diversidades. Foto: Abel Matos Notícia do dia 21/05/2026

Considero os códigos atuais de comunicação um dos sérios obstáculos à efetivação do diálogo entre comandantes do sistema e as bases populares. A linguagem tornou-se tão burocrática que, até mesmo, pessoas letradas e autodidatas, recolhem-se e, conforme o Poeta Manuel Bandeira, em Evocação do Recife, optam pela “Língua errada do povo. Língua certa do povo”

 

Na mesma linha reflexiva, Nego Bispo abre o diálogo e reforça o reconhecimento da linguagem popular, da “confluência entre os saberes. Um processo de equilíbrio entre as civilizações diversas desse lugar. Uma contracolonização”.  

 

Em meus rascunhos literários, com frequência, apoio-me também em Anúncios/Denúncias do Educador Paulo Freire. A propósito, a Pedagogia do Oprimido* foi e continua portal, nutriente diário em meus diálogos libertários a rastros de opressão digitalizados em minha psique. Importante refletir: a ausência de autoconhecimento, autoconsciência, autorresponsabilidade e autoeducação reforça a opressão desapercebida em nós com respingos a Outrxs considerados inferiores cultural e socialmente. 

 

No pensamento do Educador, “A História é tempo de possibilidades”. Nessa pegada, acreditamos nas teimosias daquelas e daqueles que remam contra a correnteza colonizadora. 

 

Por essa trilha, a teimosia milenar providencialmente chega às Terras Baixas do Amazonas, no dia 11 deste mês de maio, quando o Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (ICSEZ) praticiza a Utopia Freiriana e acolhe possibilidades para além do academicismo sistêmico: quebra paradigmas verticalistas e oficializa a nova Diretoria do Instituto, na Pessoas da Companheira/Camarada de Lutas e Resistências por Justiça Popular/Ambiental, Pós-Doutora em Educação, Maria Eliane de Oliveira Vasconcelos. 

 

Há questões significativas, providenciais relacionadas ao fato e à data. É pertinente problematizar o conceito “providência”: do latim providentia (previsão). Aliança do prefixo pro (à frente; antes) com videre (ver). É inegável, a ciência e/ou teorias acadêmicas fundamentam-se em antigas sabedorias, são resultantes de observações milenares e de relações preludiais. Os ancestrais fornecem energia e intuição, porém a materialização e a prática dependem do trabalho, do respeito à Vida em sua completude e das ações concretas no presente. Por esse caminho, sopros de antepassados, guias e/ou mentores chegam intuitivamente às gerações descendentes via conexões e exemplos. As conexões daqueles povos dialogavam com várias divindades e, dessa forma, alcançavam respostas sábias, justas e fraternais às necessidades comunitárias.

 

Memórias Conectadas

Há centenas de anos, a cosmologia Tupi-Guarani abre o mês de maio com o Festival de Ará-Ymã (Deusa da Escuridão): divindade relacionada ao tempo antigo; um dos grandes ciclos conectados ao calendário e à visão de mundo deste Povo. O tempo de Ará-Ymã corresponde ao outono e inverno, período associado ao frio; é tempo de recolhimento, reflexão, introspecção, auto escuta, auto avaliação em atenção à germinação das sementes de cura, de força, de sabedoria, de justiça e amorosidade. É o tempo de cultuar a Chuva - a Deusa Amana*. No despertar da espiritualidade daqueles povos, na abertura do Festival, mulheres homenageavam a Deusa com danças livres invocando a fertilidade. Na frequência rítmica da chuva, as mulheres seguravam moringas coletando a água celestial para uso medicinal. O “tatãm” * despertava o coração da Mãe Terra em sintonia com os “mbaraká”* alinhando corpos adormecidos à cura através da livre dança. 

 

Conexões à data e fatos vivenciados durante a posse da nova diretoria do ICSEZ trouxeram profundas reflexões com providências ancestrais somadas ao tempo de Ará-Ymã e com as energias da Lua Minguante: tempo de acerto de contas e renascimento; tempo de mergulhar no túnel interior, avaliar sombras bloqueadoras ao despertar da luz, limpeza de canais e de campos ignorados; tempo de trocar a pele, explorar riquezas silenciadas e adubar o canteiro para germinação das sementes acolhidas nas vibrações da Lua Nova já em movimento. 

 

A Nova Diretora do ICSEZ, a Companheira/Camarada Maria Eliane de Oliveira Vasconcelos, traz em sua matriz existencial Sopros Ancestrais indeléveis e providenciais cujos nutrientes originais Lhes permitem limpar canais, calabouços... trocar peles calejadas, eliminar sombras sistêmicas, semear “Inéditos Viáveis” e permitir o florescer de sementes adormecidas - o verdadeiro “unus + versus: a coletividade de interesses comuns”. Os Sopros acolhidos das Ancestralidades da Companheira dialogam com a Educação do Campo, Florestas e Águas; com Diversidades Amazônicas e Educomunicação. No comando da CANOA, tece redes de cooperação em ensino, pesquisa e extensão envolvendo alimentação como expressão cultural em fortalecimento à agricultura familiar e à sustentabilidade das comunidades ribeirinhas tradicionais da Amazônia. 

 

Energéticos Freireanos

Nutrientes ímpares! Abençoadas providências chegam à Parintins apontando rumos transformadores manifestados no ritual de posse da nova diretoria acadêmica. Ali experienciou-se a antiga e silenciada Utopia da Comunidade Parintinense: Sentir e Viver o desabrochar do Diálogo, a Problematização da Realidade, a troca de Sabedorias e Conhecimentos, o Acolhimento, a Amorosidade, a Autonomia e finalmente a Construção de Projetos Populares Democráticos de amplo alcance... A linhagem ancestral de Mestre Paulo Freire, vibrou!...

 

Por um breve instante e sutilmente, a força ancestral/popular ali presente silenciou o modelo piramidal e trouxe voz e vez a rituais de limpeza espiritual, emocional, mental, com ampla participação e interatividade entre diversidades ali presentes: academia, letrados e não-letrados, jovens e adultos, comunidade local, representatividades religiosas e curiosXs.  

 

A decoração do ambiente universitário priorizou simbologias alinhadas a memórias e sabedorias dos antigos rituais à Ará-Ymã: mandala, incenso, chocalho, tambor, moringa, cuias, Terra, Água, bacia de barro com ervas de força para lavagem das mãos: Cacau, Canela, Jurema e Guaraná. 

 

Até aqui, nossa Reverência às Providências Ancestrais! Os Diálogos com o Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (Parintins/Am) rompera protocolos, paradigmas estruturais e abrira brechinhas às Utopias em Movimento Contracolonizante!

 

Falares de Casa

Antônio Bispo dos Santos - Escritor e liderança quilombola da comunidade Saco do Curtume, município de São João do Piauí. Autor de Colonização, quilombos: modos e significações, publicado em 2015 pelo INCT de Inclusão.

Deusa Amana – Cultuada pelos povos Tupi-Guarani: “Água que vem do céu, bênção e prosperidade”. Também chamada de Amanaci ou Amanamanha nas lendas do Alto Rio Negro/Am. 

FREIRE. Paulo. Pedagogia do Oprimido. Editora Paz e Terra/SP. 1970

Mbaraká – Chocalho, maracá, maraca. (Tupi-Guarani)

Tatãm – Tambor (Tupi-Guarani)

Tiquinhos – No popular amazônida: resíduos; fragmentos. 

 

Maria de Fátima Guedes Araújo. Caboca das Terras Baixas da Amazônia. Educadora popular, pesquisadora de saberes popular/tradicionais da Amazônia. Licenciada em Letras pela UERJ (Projeto Rondon/1998). Com Especialização em Estudos Latino-americanos pela Escola Nacional Florestan Fernandes/ UFJF. Fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS). Autora das obras, Ensaios de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage, Retalhos de Cidadania e Organizadora do Dicionário - Falares Cabocos.