Violência por Likes: Quando a sociedade vira plateia

Violência por Likes: Quando a sociedade vira plateia Foto: Divulgação Notícia do dia 26/01/2026

Nas últimas semanas, vídeos de brigas, agressões e humilhações se espalharam pelo país como se fossem entretenimento barato. A cena registrada em Parintins, onde uma jovem foi levada para um encontro e acabou espancada enquanto outras pessoas filmavam tudo, rindo e narrando o momento, é só mais uma foto dessa vitrine de absurdos que virou o cotidiano digital.

 

O que deveria causar indignação virou “conteúdo”.

 

A violência, quando gravada, parece ganhar uma maquiagem que suaviza a gravidade do que está acontecendo. A dor vira espetáculo. A covardia vira performance. E quem segura o celular se transforma no diretor desse show grotesco.

 

A lógica é simples e doentia:

se der engajamento, vale tudo.

 

E é aqui que entra o ponto mais incômodo: não existe vídeo viral de agressão sem plateia. A cultura do “compartilha aí” alimenta quem busca fama, ainda que seja fama tóxica, construída em cima da humilhação alheia. Os likes se tornam uma espécie de moeda social que premia quem faz mais barulho, mesmo que esse barulho seja o grito de alguém apanhando no chão.

 

A internet potencializou um comportamento que sempre existiu, mas que agora ganhou palco, holofote e replay infinito. A fronteira ética ficou borrada. Pessoas comuns se comportam como se fossem comentaristas de luta livre, só que os golpes são reais e o sangue também.

 

O problema não está apenas em quem agride.

Está em quem filma.

Em quem assiste.

Em quem compartilha.

Em quem “acha engraçado”.

 

O Brasil tem problemas sérios de violência, ninguém que vive o dia a dia sabe disso melhor do que quem está na ponta, como as equipes de segurança e os profissionais que acompanham a vulnerabilidade social de perto. Mas quando nós passamos a tratar agressão como entretenimento, damos combustível para que mais cenas como essa aconteçam.

 

No fim das contas, o que está em jogo não é só segurança pública.

 

É humanidade.

 

É a capacidade de enxergar o outro como alguém que sente dor, medo e vergonha, e não como protagonista de um vídeo que vai render comentários durante dois dias.

 

A pergunta que fica é simples e incômoda:

que tipo de sociedade nós estamos ajudando a construir quando apertamos “gravar”?

 

O debate precisa continuar e, de preferência, fora das telas, onde a vida acontece de verdade.

 

 

Texto: Gilson Assis