Figura popular de Parintins, Jaime Ferreira morreu aos 81 anos na Sexta-Feira Santa, deixando um legado de trabalho, futebol e cultura que marcou gerações na Ilha Tupinambarana
Notícia do dia 11/04/2026
Naquela Sexta-Feira Santa, dia 3 de abril de 2026, data em que a tradição católica relembra a crucificação de Jesus de Nazaré, partiu também um dos rostos mais conhecidos da cidade: Jaime Ferreira, o Lamparina.
Aos 81 anos, ele morreu cercado pelos filhos, filhas, netos e netas, deixando para trás não apenas a saudade da família, mas um vazio sentido nas ruas, nos quintais, nos campos de futebol e na memória coletiva de Parintins.
Sua morte não é apenas a despedida de um morador antigo da rua Leopoldo Neves, no Centro da cidade. É o adeus a um personagem popular que ajudou, com as próprias mãos, a construir parte da história da Ilha Tupinambarana.
Um homem pequeno no tamanho, gigante na presença
Baixo, de andar apressado e pernas tortas que lembravam o lendário Garrincha, Lamparina era uma dessas figuras que não precisavam de apresentação.
Seu nome circulava naturalmente pela cidade:
nos quintais,
nas ruas,
nas conversas,
nos campos de futebol,
nas histórias do povo.
Quase todo mundo em Parintins sabia quem era Lamparina.
E quem o conhecia tinha sempre algo a contar.
Mais de 60 anos cavando a terra da cidade
Durante mais de seis décadas, Jaime Ferreira trabalhou como poucos.
Com um ferro de cova e uma pá, escavou milhares de fossas e sumidouros em residências de Parintins, num tempo em que o serviço era feito na força do braço, sem máquinas, sem facilidades.
Era trabalho duro, pesado, invisível.
Mas essencial.
Foi ele — e tantos outros como ele — quem ajudou a construir a base silenciosa da cidade, garantindo dignidade para centenas de famílias.
Lamparina não apenas viveu em Parintins.
Ele mexeu na terra da cidade, cavou seu chão e ajudou a estruturá-la.
O orgulho de ter ajudado na Catedral
Entre as histórias que carregava, uma lhe enchia os olhos.
Lamparina dizia com orgulho que ajudou a cavar o alicerce da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, ainda na década de 1960. É o maior templo da Igreja Católica no Amazonas.
“Passei 25 dias cavando quase dois metros de fundura, 25 dias”, recordou.
Hoje, a Catedral se ergue como símbolo da fé e da história de Parintins.
E sob ela, permanece também o suor de homens simples que ajudaram a levantá-la.
O jogador que marcou época no futebol local
Antes de ser lembrado apenas como trabalhador, Lamparina também fez história no futebol.
Defendeu clubes tradicionais como Amazonas, Sul América, Estrela do Norte, São Cristóvão, JAC e o time dos Marianos.
No antigo Estádio Tupy Cantanhede, era conhecido por ser rápido, atrevido e difícil de marcar.
Ao lembrar do time do Sul América, fazia questão de citar os companheiros:
“Na minha época o time era Mapingua, Jararaca, Cara Branca, Nilo Gama, Nonoca, Barata, Zequinha… aquele time era bom, rapaz”, dizia.
Entre todos, um nome sempre ganhava destaque:
“Nonoca foi o melhor driblador que eu vi jogar”, afirmou.
Caprichoso desde menino
Lamparina também carregava no peito a paixão pelo Boi Caprichoso.
Desde pequeno, participava das brincadeiras e guardava com carinho as lembranças daquele tempo.
“Desde pequeno eu brinquei no Caprichoso. Eu usava aquelas cinco penas na cabeça, na época que o Caprichoso era do Luiz Gonzaga”, relembrou, sorrindo.
Era memória viva de uma época em que o boi era ainda mais próximo do povo, mais simples e profundamente enraizado na cultura local.
O homem que nunca parou
Mesmo já idoso, Lamparina mantinha hábitos que impressionavam.
Caminhava até a rampa do Mercado Central e seguia até o Rio Amazonas, onde gostava de tomar banho.
Dizia que era algo “gostoso” e que fazia bem.
Era como se nunca tivesse parado.
Sempre em movimento.
Sempre presente.
Sempre vivo.Uma despedida simbólica
A morte de Lamparina na Sexta-Feira Santa carrega um simbolismo profundo.
No dia em que a fé cristã relembra dor, sacrifício e entrega, Parintins também se despediu de um homem que viveu com simplicidade, trabalho e dignidade.
Sem riqueza.
Sem títulos.
Mas com algo raro:dignidade.
Uma memória que fica
Parintins perdeu um personagem.
Mas ganhou uma memória eterna.
Lamparina permanece:
na rua Leopoldo Neves,
na Catedral,
nos campos de futebol,
nas histórias do Caprichoso,
nos quintais que cavou,
e no coração de quem o conheceu.Porque algumas pessoas não apenas passam pela cidade.
Elas ajudam a construir a alma dela.
E Jaime Lamparina foi uma dessas.
Texto: Hudson Lima É Jornalista