Cid Mattos faz história: é a primeira pessoa trans não-binária do interior do Amazonas a ter documentos retificados

Jovem parintinense de 21 anos conseguiu registrar oficialmente o nome Cid Mattos da Silva e o gênero não-binário; em entrevista exclusiva ao jornalista Hudson Lima, relata dez anos de luta pelo reconhecimento de sua identidade

Cid Mattos faz história: é a primeira pessoa trans não-binária do interior do Amazonas a ter documentos retificados Notícia do dia 19/08/2026

Da Redação - Aos 21 anos, Cid Mattos da Silva, natural de Parintins, acaba de escrever um capítulo histórico de representatividade no Amazonas. Cid tornou-se a primeira pessoa trans não-binária do interior do estado a ter seus documentos oficialmente retificados, passando a ter reconhecidos em sua certidão de nascimento o nome pelo qual se identifica e o gênero não-binário.

 

A conquista documental encerra uma batalha de aproximadamente três anos diante da Defensoria, do cartório e da Justiça, mas faz parte de uma história que começou muito antes.

 

Em entrevista concedida nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, ao jornalista Hudson Lima, editor dos sites ParintinsAmazonas e KOIOTE, Cid falou sobre os primeiros questionamentos ainda na infância, a relação com a família, a disforia de gênero, o processo de construção de sua identidade e a longa caminhada até conseguir a retificação.

 

“Há dez anos eu afirmo que sou uma pessoa transexual. Eu passei por dez anos por disforia de gênero”, contou.

 

O que é disforia de gênero?

 

Na própria entrevista, Cid explicou o significado de uma expressão que ainda é desconhecida por muitas pessoas.

 

“Disforia de gênero é quando a gente, por exemplo, se observa no espelho e não se identifica com as nossas características físicas, hormonais, corporais, sexuais, visuais, com características como cabelo, corpo, barba, bigode, peitos e pelos”, explicou.

 

De forma geral, disforia de gênero é o sofrimento ou desconforto que uma pessoa pode experimentar diante da diferença entre sua identidade de gênero e determinadas características do próprio corpo ou da maneira como é percebida e tratada socialmente. Nem toda pessoa trans ou não-binária necessariamente vivencia disforia.

 

No caso de Cid, esse processo começou por volta dos 11 anos.

 

“Eu não me sentia saudável dentro de um corpo de um garoto, entre aspas. Eu não me sentia saudável, mas, ao mesmo tempo, eu me enxergava como mulher. Então eu passava por aquele processo de disforia, de não me reconhecer com o corpo no qual eu estava e da forma como as pessoas me chamavam.”

 

O nome utilizado naquele período também passou a provocar incômodo.

 

“Meu nome era um incômodo para mim. Com 11 anos, eu decidi que ia mudar de nome. Com 11 anos eu já tinha esses processos de mudança, de não me enxergar, de querer usar salto alto, de querer usar unhas pintadas, de querer ter o cabelo grande.”

 

“Eu fui construindo a minha identidade”

 

Cid descreve sua descoberta como um processo gradual de construção da própria identidade.

 

“Foi um processo de construção, porque o gênero é uma construção social. Então eu fui construindo a minha identidade, fui construindo o meu gênero a partir disso.”

 

Dentro de casa, o processo também exigiu compreensão e adaptação. Cid conta que seu pai inicialmente teve dificuldades para entender o conceito, embora respeitasse sua identidade.

 

“Meu pai tinha dificuldades para entender, não era para aceitar. Ele aceitou muito bem, respeitava muito bem, mas tinha dificuldades para entender.”

 

Cid também contesta a ideia de que a não-binariedade seja uma tendência recente.

 

“A não-binariedade não é uma coisa atual, não é uma modinha. Ela já existe desde os primórdios do tempo. O que é atual é estarmos discutindo a não-binariedade como gênero, como construção social.”

 

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A batalha pela retificação começou há três anos

Há aproximadamente três anos, Cid procurou a Defensoria Pública em Parintins para iniciar o processo de retificação.

O pedido foi encaminhado ao cartório, mas encontrou obstáculos.

 

“Os defensores enviaram um documento para o cartório. O cartório não tinha precedentes aqui no estado do Amazonas para fazer o processo”, relatou.

 

Foi durante essa parte da entrevista que Cid lembrou um caso fundamental para a história do reconhecimento de pessoas não-binárias no Amazonas: Álex Sousa de Sá, de Manaus.

 

Álex abriu o caminho no Amazonas em 2022

A história mencionada por Cid é confirmada oficialmente pela Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM).

 

A instituição identifica Álex Sousa de Sá, de Manaus, como a primeira pessoa do Amazonas a ter o gênero não-binárie registrado na certidão de nascimento.

 

Álex soube, pelas redes sociais, de um mutirão realizado em novembro de 2021 pelo Núcleo de Defesa dos Direitos Homoafetivos e Diversidade Sexual (Nudiversis), da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro.

 

A ação de retificação foi apresentada à Justiça do Rio de Janeiro e a decisão judicial favorável saiu em fevereiro de 2022. Mesmo com a sentença, Álex ainda encontrou dificuldades porque o sistema utilizado pelo cartório não possuía a opção “não binárie”.

 

A Defensoria Pública do Amazonas passou então a atuar junto ao cartório de Manaus para que a decisão fosse cumprida.

 

Após cerca de seis meses de batalha, em 11 de abril de 2022, Álex conseguiu finalmente ter nome e gênero retificados na certidão de nascimento.

 

O caso tornou-se o primeiro oficialmente reconhecido no Amazonas.

 

Quatro anos depois, o marco chega ao interior

Se Álex abriu o caminho no Amazonas a partir de Manaus, quatro anos depois um novo capítulo dessa história é escrito em Parintins.

 

Cid Mattos da Silva torna-se a primeira pessoa trans não-binária do interior do Amazonas a ter seus documentos retificados.

 

Há ainda uma diferença importante entre as duas trajetórias. No caso de Álex, a decisão judicial foi obtida por meio da iniciativa da Defensoria do Rio de Janeiro, com posterior atuação da DPE-AM para cumprimento da sentença em Manaus.

 

Cid conseguiu realizar seu processo por meio da Defensoria Pública do próprio Amazonas, sem precisar recorrer a outro estado.

 

“Eu sou a primeira do interior a passar por esse processo totalmente gratuito pela Defensoria, sem ter que ir para outro estado”, destacou.

 

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Processo precisou chegar à Justiça

A primeira tentativa de Cid não foi suficiente para concluir a alteração.

 

Diante das dificuldades encontradas, precisou procurar novamente a Defensoria Pública.

 

“Foi uma luta porque o cartório primeiramente não tinha acatado a decisão. Então eu tive que novamente marcar um agendamento na Defensoria para conseguir, de fato, passar pelo processo novamente.”

 

O caso seguiu então pela via judicial.

 

Cid já utilizava seu nome social em diferentes documentos e registros.

 

“Eu já tinha o processo do nome social em todos os outros documentos, como título de eleitor, carteira estudantil e também o nome social na carteira de identidade.”

 

Segundo Cid, esses documentos ajudaram a demonstrar que o nome já fazia parte de sua vida e de sua identidade.

 

Até que veio a decisão esperada.

“O juiz acatou a decisão de mudar o nome para Cid Mattos da Silva e também de mudar o meu gênero para gênero não-binário na certidão de nascimento.”

 

Com a decisão favorável, a Defensoria solicitou ao cartório a averbação.

 

“O cartório fez todo o processo de averbação e eu consegui finalmente tirar minha certidão de nascimento.”

 

A mudança representa algo muito maior do que a substituição de palavras em um documento: Cid Mattos da Silva deixou de ser apenas o nome social utilizado durante anos e passou oficialmente a ser seu nome civil.

 

“Depois de 10 anos, eu consegui”

Na terça-feira, 18 de agosto, um dia antes de conceder entrevista à reportagem, Cid tornou pública a conquista em suas redes sociais.

 

A mensagem relembrou uma década de afirmação de sua identidade.

 

“10 anos me afirmando ser diferente! 10 anos me afirmando ser Cid Mattos da Silva!”, escreveu.

 

Cid recordou também os preconceitos enfrentados e a luta para conseguir o reconhecimento.

 

“E depois de 10 anos, eu consegui! E isso não é uma vitória só minha”, comemorou.

 

Na publicação, Cid afirmou que considera a conquista também uma vitória das demais pessoas não-binárias que desejam ter seus documentos retificados, suas identidades reconhecidas e seus sonhos alcançados.

 

Também prestou homenagem às pessoas trans que abriram caminhos anteriormente.

 

“Viva as Travestis que vieram antes de mim! Viva as travestis que virão depois!”

 

E encerrou a publicação registrando o significado histórico daquele momento:

“1ª Não-Binárie do Interior do Estado do Amazonas a ter seus documentos retificados. VITÓRIA!!”

 

“Minha mãe e meu pai me respeitam”

A caminhada de Cid não aconteceu apenas diante de cartórios, Defensoria e Justiça.

 

Cid conta que passou por acompanhamento de psicólogo e psiquiatra durante seu processo de compreensão da própria identidade.

 

“Foi uma luta muito grande, de muito tempo. Passei por psicólogo, passei por psiquiatra para verificar essa questão, de como funciona a identidade, de como eu estava me sentindo e de como eu me sentia em relação às outras pessoas.”

 

Enquanto o reconhecimento jurídico ainda não existia, Cid já vivia socialmente utilizando seu nome.

 

Para quem passou a conhecê-lo depois disso, a identificação aconteceu naturalmente.

 

“Para as pessoas que não me conheciam foi muito natural me chamar de Cid, porque elas não sabiam do meu nome morto. Então, para elas, me chamar de Cid é natural.”

 

Para familiares, amigos e pessoas que já o conheciam anteriormente, houve um período maior de adaptação.

 

Hoje, segundo Cid, essa realidade mudou.

“Minha mãe e meu pai me respeitam, me chamam pelo meu nome, Cid Mattos. Os meus primos, meus colegas, as pessoas que sabem do meu antigo nome também me chamam pelo meu nome Cid Mattos.”

 

Movimento estudantil, educação e tecnologia

A trajetória de Cid também é marcada pela educação pública, pela organização da juventude e pelo movimento estudantil.

 

Cid foi presidente do Grêmio Estudantil Professor Raymundo Luiz, do IFAM – Campus Manaus Centro, e posteriormente ampliou sua participação em organizações de representação estudantil.

 

Também integrou a UESA/Livre, exercendo funções relacionadas às escolas técnicas e à interiorização do movimento estudantil.

 

Atualmente, é presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Parintins (UMES/PIN), diretore de Assuntos Acadêmicos da União dos Estudantes do Estado do Amazonas (UEE/AM), diretore LGBTQIAPN+ da União da Juventude Socialista do Amazonas (UJS-AM) e membro da Articulação Brasileira de Não-Bináries (ABRANB).

 

Em 2026, Cid abriu outro capítulo de sua formação ao ingressar no curso de Engenharia de Software.

 

Engenharia de Software no IFAM

A informação acadêmica também possui confirmação documental.

Documento oficial do Instituto Federal do Amazonas (IFAM) – Campus Parintins registra Cid Mattos da Silva entre os convocados para Engenharia de Software em 2026, com situação de matrícula registrada como “Matriculado”.

 

A entrada na graduação aproxima ainda mais Cid de outra área pela qual demonstra interesse: a tecnologia.

 

Assim, aos 21 anos, sua trajetória passa por diferentes frentes — movimento estudantil, educação, tecnologia e defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+.

 

Agora começa outra etapa

A nova certidão representa a principal vitória jurídica, mas não significa o fim da burocracia.

 

Cid ainda precisa atualizar cadastros bancários, documentos acadêmicos, registros escolares e outros sistemas nos quais constam informações anteriores.

 

“Agora é continuar na luta para que eu consiga retificar esse nome nos outros processos, como nome de banco, nos cadastros que eu já fiz, nas certidões de escola e documentos.”

 

A diferença, a partir de agora, é fundamental.

 

O nome que durante anos precisou ser apresentado como social tornou-se oficialmente seu nome civil.

 

“Vou lutar para conseguir retificar todos os outros documentos com o meu nome, que hoje é o meu nome civil.”

 

A história de Cid Mattos da Silva começou muito antes de uma decisão judicial ou de uma nova certidão. Começou ainda aos 11 anos, quando passou a questionar a forma como era identificado e a construir a identidade que, uma década depois, seria reconhecida oficialmente pelo Estado.

 

Em 2022, Álex Sousa de Sá, de Manaus, tornou-se a primeira pessoa do Amazonas a ter o gênero não-binárie registrado na certidão de nascimento.

 

Agora, em 2026, Cid Mattos faz história em Parintins ao se tornar a primeira pessoa trans não-binária do interior do Amazonas a ter seus documentos retificados.

 

Dez anos depois de começar a afirmar quem é, uma frase publicada por Cid resume o significado da conquista:

“Depois de 10 anos, eu consegui.”

 

Texto: Hudson Lima  (92) 991542015