Pedestres usam máscara em São Paulo: estado concentra número de casos de Covid no país Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Notícia do dia 23/07/2020
SÃO PAULO — O uso de hidroxicloroquina, associada ou não à azitromicina, não trouxe nenhum benefício ao tratamento de pacientes com quadros leves a moderados de Covid-19, mostra estudo inédito do grupo Coalizão Covid-19 Brasil. Ao contrário: além de ineficientes na melhoria do estado de saúde dos participantes, os medicamentos provocaram efeitos cardíacos e hepáticos adversos.
A pesquisa teve a participação de 55 hospitais públicos e privados de ponta do país, e os resultados foram publicados nesta quinta-feira no prestigiado periódico científico “New England Journal of Medicine”.
Os médicos e pesquisadores brasileiros acompanharam 667 pacientes de hospitais em diferentes regiões do início da pandemia no país, em março, até junho. O critério para integrar o estudo, chamado de Coalizão I, era que fossem pacientes admitidos há menos de 48 horas nos hospitais, e ainda dentro dos primeiros sete dias de apresentação de sintomas. Foram analisados apenas casos leves a moderados, quer dizer, pessoas internadas mas sem necessidade de oxigênio, ou que precisavam de, no máximo, quatro litros por minuto de oxigênio suplementar. A média de idade era de 50 anos.
Divididos em grupos por sorteio, 217 pacientes receberam uma combinação de hidroxicloroquina, associada a azitromicina e suporte clínico padrão. Outros receberam hidroxicloroquina e suporte clínico padrão (221 pacientes). Por fim, um grupo de controle (227 pacientes) teve apenas o suporte clínico, com acompanhamento médico e tratamento padrão em casos de síndromes respiratórias. Já para os dois primeiros grupos, a hidroxicloroquina, associada ou não à azitromicina, foi administrada durante sete dias.
Todos os pacientes foram analisados 15 dias depois de começarem o tratamento. Ao final, o quadro clínico era similar nos três grupos estudados, ou seja, os medicamentos não foram úteis no desfecho da evolução clínica. Segundo a pesquisa, após 15 dias, estavam em casa, sem limitações, 69% dos pacientes que usaram hidroxicloroquina combinada a azitromicina. Mas o mesmo quadro foi visto em 64% dos pacientes que usaram somente hidroxicloroquina, e por 68% dos pacientes que receberam apenas suporte clínico padrão.
— Não constatamos nenhum efeito benéfico, nem com a hidroxicloroquina sozinha nem junto com a azitromicina — explica Regis Goulart Rosa, membro do Comitê Científico da Coalizão Covid Brasil e médico intensivista do Hospital Moinhos de Vento, que participou do estudo.
No início da pandemia, lembra, estudos pré-clínicos e estudos in vitro demonstravam uma possível efetividade da hidroxicloroquina para combater o novo coronavírus. Achava-se também que a associação de azitromicina pudesse potencializar o efeito desse combate.
— Mas, na prática, ao colocar os pacientes em tratamento com o estudo clínico, esses medicamentos não mostraram nenhum benefício — destaca.
Além de não trazerem benefício, os medicamentos provocaram efeitos adversos nos pacientes estudados.
Além do estudo sobre hidroxicloroquina, associada ou não à azitromicina, a Coalizão COVID-19 Brasil conduz outros oito estudos com potenciais terapias para pacientes infectados pelo novo coronavírus, entre eles anticoagulantes e anti-inflamatórios.
— É uma busca incessante — diz Flávia Machado. — Do ponto de vista científico, juntando com outras evidências científicas para a hidroxicloroquina, ela não se mostrou como alternativa. Mas a coalizão está empenhada em encontrar soluções. Temos outros estudos em andamento. Todos queremos encontrar terapias que sejam eficazes, mas sem falsas promessas.
Histórico
Estudos sobre a eficácia da hidroxicloroquina têm motivado pesquisadores de todo o mundo. Na última quarta-feira, duas pesquisas publicadas pela revista "Nature" apontaram que o medicamento não tem utilidade no tratamento de Covid-19.
Em um dos artigos, a cloroquina foi ineficiente em apresentar efeito antiviral contra a Covid-19 em macacos. No outro, a pesquisa não encontrou efeitos benefícos do medicamento em células pulmonares infectadas pelo vírus, em laboratório.
Texto: Elisa Martins
O GLOBO