Resistências de uma Guerreira Sagrada

“Não sentarei em um trono onde se sentaram escravos para governar outros escravos.” (Khalil Gibran)

Resistências de uma Guerreira Sagrada “É difícil fechar os olhos para a miséria em avanço, onde Políticos, com seus currais eleitorais, ditam e excluem”. Foto: Willian Belém Notícia do dia 31/03/2026

Registros milenares, em maioria transformados em cinzas pela “santa inquisição”, guardam legítimas contribuições à ciência acadêmica moderna pautada pela racionalidade. Comprovadamente a ciência ancestral silenciada, rotulada como mito e/ou lenda no academicismo colonial, é a base teórica estrutural dos primeiros sopros da ciência universal. 

 

A abordagem em descrição traz sutil resgate histórico milenar sobre GuerreirXs do Arco-Íris: Sonhos Indígenas e Proféticos, constante na Obra de Willoya Brown (1962). Na presente conjuntura, GuerreirXs do Arco-Íris “manifestam-se em criaturas empenhadas, pessoas comprometidas com modos justos, dignos e amorosos de existencialidade”. 

 

A antiga Profecia perdeu-se no tempo. Bagos* raros encontramos após intensas peneiradas... Na controvérsia, em meio às escuridões sistêmico dogmáticas de Parintins/AM, lá está Irmã Maria José de Souza Belém, Filha da Caridade de São Vicente de Paulo, soprando esperançamentos.

 

Ir. Maria José chegou a este plano físico aos 28 de outubro de 1959, através da Mãe Maria Ivaneide de Souza Belém e do Pai José Belém de Souza: adubadores fundamentais à sustentabilidade da Guerreira em descrição.

 

Em breves relatos de sua singular trajetória, Ela compartilha testemunhos ímpares de lealdade e coerência à ética espiritual cristã vivenciada...

 

“Meus pais, grandes trabalhadores, labutavam diariamente para sustentar nove filhos. Meu pai, conhecido como Belém, foi um dos primeiros carroceiros de Parintins. Sofrera muitas humilhações, quando não conseguia dinheiro suficiente para entregar ao patrão. Minha mãe, uma mulher forte e batalhadora, conhecida como Lili, sempre empenhada nos originais ensinamentos cristãos e nos valores fundamentais para uma vida digna e humana. Não se acomodava e trabalhava para ajudar a família na sustentabilidade. Trabalhava lavando juta, na produção de castanha... Também trabalhou em escolas como zeladora.  Por essa via de luta e resistência, presenteou meu pai com uma carroça e um cavalo, tirando nosso genitor da situação degradante”.

 

Na infância, a Cunhantã* Parintintin já se manifestara Luz para tempos incógnitos... 

 

“Sou a primeira filha e bem cedo tomava conta dos meus irmãos. Minha mãe sempre batalhava fora: nas escolas, na igreja e eu era a principal responsável pela curuminzada. De 07 aos 10 anos assumi a função de babá dos filhos de um renomado médico de Parintins. Alimentação era meu único direito. Ele era bondoso, mas não parava em casa. Aos 10 anos de idade retorno pra casa convicta de que minha luta pela vida seria constante. Sempre acreditei em mim: se eu não der crédito aos meus empreendimentos, quem irá dar? Enfim, tornei-me mãe do lar, responsável pela casa, pelas tarefas domésticas junto aos meus irmãos, com determinação e coragem. Minha formação intelectual tem vários estágios: ensinos fundamental e médio fiz em Parintins; Cursei Pedagogia do Ensino Religioso Escolar via CONSEP - UFPA e Arquidiocese de Belém-PA. Fiz Licenciatura em Filosofia/UEC; Especialização em Administração Escolar/Universidade Estadual Vale do Acaraú em Sobral/CE”.

 

Na adolescência, o vigor missionário de Maria José avança em desafios surpreendentes: arrisca-Se em semeaduras voltadas ao florescimento do real-concreto da vida religiosa...

 

 “Aos 12 anos, com apoio de uma Filha da Caridade, à sombra das castanholeiras, da Praça do Sagrado Coração de Jesus, tornei-me catequista de crianças. Aos 16 anos, busquei emprego: só recebia NÃO! Um dia, no arraial de Nossa Senhora do Carmo, um Barraqueiro* me deixou vender línguas-de-sogra*. Ganhei um dinheirinho. Mais tarde, um Amoroso Padre, acompanhando minha história contada na praça, abriu-me portas na secretaria da Igreja. Aprendi muitas coisas. Posteriormente, trabalhei na Prefeitura, na FENAME*, MOBRAL* e MEB*. Aos 22 anos, acolhi o chamado divino e assumi efetivamente a missão religiosa que abraço até hoje. Os estados do Maranhão e Ceará me serviram de abrigo e suporte ao postulado e seminário. Minha primeira missão como educadora foi na cidade de Baião/PA. Significativa! Trabalhávamos nas comunidades cristãs sob o método VER - JULGAR - AGIR em parceria com Padres Holandeses: profundos em leitura crítica. O propósito era trabalhar autoconhecimento, autoconsciência com foco na autotransformação: massa em povo capaz de se reconhecer, valorizar a própria história e trabalhar por um mundo digno, justo, solidário, cidadão, comprometido com o Projeto de Deus.  A formação seguia a ética da Teologia da Libertação sob assessoria de Leonardo Boff, Clodovis Boff, Frei Beto e, na Educação Popular, Paulo Freire”.

 

A missão como educadora exigira-Lhe agregar teoria e prática. Nesse entrelaçamento, a ética da Guerreira direciona-A a intervir de forma intensa aos impactos ambientais na região do Pará... 

 

“Em 1983 a construção da Usina Hidroelétrica de Tucuruí/PA forjou o deslocamento de mais de 32 mil pessoas (indígenas, ribeirinhos, agricultores, quilombolas...) Resultando em severos impactos ambientais e sociais: perda de terras, casas e graves problemas de indenização e reassentamento. Mortes de peixes, de animais silvestres... Secas nos rios, contaminação pelo Agente Laranja*... Nosso trabalho missionário foi intenso nos acampamentos, haja vista as fortes perseguições à Igreja que atuava junto aos mais pobres”.

 

A lealdade da Missionária exigiu envolvimentos decisivos na defesa dos direitos fundamentais: ética universal absorvida nos anúncios do Educador Paulo Freire...

 

 “A Igreja me trouxe chamados importantes: em 1955, a primeira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (RJ); a segunda, em 1968, Medellin (CO); e a terceira, 1959, em Puebla (MX) onde definiram os rumos da Igreja Católica no continente, destacando-se a Opção Preferencial pelos Pobres e a evangelização no contexto de pobreza e desigualdade social. Na década de 80, também interagi nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) - fundamentais na gênese do Partido dos Trabalhadores  (PT): um dos principais embriões organizativos nas periferias, comunidades, vilas, assentamentos, associações, sindicatos, estradas... A Fé, a União e a Luta Social contra a ditadura e ao alto custo de vida firmaram a identidade do partido. Em todos esses Chamados, a espiritualidade Latino - Americana, fundamentada no Concílio Vaticano II, década de 1960, no contexto da Guerra Fria e das desigualdades sociais, fizera-se presente através das práxis em atenção à necessidade de uma Igreja efetivamente comprometida com a Justiça Mundial”.

 

Os compromissos com o Deus da Vida assumidos pela Religiosa, manifestam-se em ações singulares frente a realidades controvérsias à Justiça Social/Popular...

 

 “Sou filha das Terras Amazônicas. Meu clã resiste e luta diariamente pela preservação das matas, dos rios, das culturas e contra todo tipo de violências. Sou Igreja e, como Tal, cultivo o princípio do Deus da Vida, Libertador. Quem ama, cura, forma e envia em missão. São Vicente de Paulo, fundador da Congregação dos Padres Lazaristas e das Filhas da Caridade, no século XVII, já alertava: ‘Oração x Ação’. Sigo-O por reconhecê-Lo ‘Santo da Caridade’; por contemplar o Cristo no pobre, o pobre no Cristo e a ação em serviço prático; por ser exemplo de Espiritualidade transformada em obras de acolhimento e promoção aos pobres, doentes, idosos e marginalizados. Na mesma frequência, Santa Luiza de Marillac (1660), nossa Fundadora, centrava em profundidade o olhar aos marginalizados – ‘Oh! Que felicidade! Sem ofender a Deus, a Companhia servisse apenas aos estritamente pobres’.  

 

Tenho que Gritar!

 

O perfil Amoroso, Acolhedor e Dialógico de Maria José - Filha das Terras Amazônidas-, sintoniza com a essência mística revolucionária do Profeta Isaías (56:10) ‘As sentinelas de Israel estão cegas e não têm conhecimentos. São como cães mudos, incapazes de latir. Deitam-se e sonham; só querem dormir’...

 

“Há muitas pessoas sofridas, abandonadas pelo Poder Público... Ovelhas perdidas sem pastor. É grande o número de adultos, jovens, adolescentes e crianças na LIXEIRA DA CIDADE em busca do básico para aliviar a fome... Acompanho esse povo! Até às 22h, essas populações subvivem marginalizadas por conta do desrespeito e da desumanidade. Outra questão que não posso calar é a população em Situação de Rua dormindo ao relento, nas praças, calçadas e etc. É difícil fechar os olhos para a miséria em avanço, onde Políticos, com seus currais eleitorais, ditam e excluem. Consequências: desemprego, desigualdades de oportunidades, racismo, desnutrição, abandono de idosos, violência contra mulheres... Empenho minha Missão contra esse cenário, tentando aliviar e ajudar em algumas situações. Outras questões graves que não me calo: a destruição da Amazônia e de ecossistemas sensíveis; a concentração fundiária nas mãos dos poderosos; a violência no campo e descumprimentos aos direitos fundamentais dos povos indígenas e de comunidades tradicionais”. 

 

Longe do foco das mídias, a Filha da Caridade segue na missão sem se importar com reconhecimento e/ou apoios institucionais...

 

 “Não tenho preocupação com reconhecimentos ou visibilidade de quem não comunga com a luta em favor dos pobres. Minha conexão com o Divino sempre foi de amor e de liberdade. O Deus da Vida, da Esperança, na pessoa de Jesus Cristo - o Imortal Revolucionário da história me preenche e me ilumina. Este testemunho é latente em minha missão e na de outras pessoas verdadeiramente comprometidas com ‘modos justos, dignos e amorosos de existencialidade, testemunhos do Cristo Vivo, Libertador entre os pobres. Nossa missão é cuidar da humanidade e do Planeta, no sentido espiritual, material sem oprimir e deixar que o outro, a outra escolham o próprio caminho. Nunca trabalhei buscando legitimação de ninguém. Quando partilho, sinto escuta, reciprocidade... Tenho recibo apoio e coisas boas das Irmãs. Não posso ser diferente do que sou em natureza. Não sou elite; minha família e o povo com quem convivo lutam diariamente por dias melhores, fomentando sempre a Esperança. Deus nos criou como Ser integral: Espiritual, Mental, Físico, Social. Por essência somos UM TODO EM TUDO. Muitas pessoas são religiosas, mas não espirituais: os próprios pensamentos, palavras e ações estão ligados à Lei que mata, violenta, exclui e seus posicionamentos são úteis para a dominação”.

 

Na posição de Religiosa, Ir. Maria José é diferencial autêntico... Por que não usa o hábito padrão da Congregação?

 

 “Questão de opção. No caso de escolha, optamos sempre por um lado. Sou feliz e consciente do que faço. Não me preocupo com avaliações, opiniões de quem está noutra margem. Estou numa idade que já não posso perder tempo. Segui por um caminho que não tem volta. É o que ESCOLHI. Tive muitos convites e oportunidades por onde trabalhei, mas escolhi este. O machismo nas Instituições é claro, objetivo e é legitimado por muitas Religiosas: pra mim, já passou da conta há muito tempo”.

 

Autoidentificada “Filha das Terras Baixas da Amazônia”, a Guerreira traz anúncios sobre teçumes de Educação Popular e Vigilância em Saúde...

 

“Em 2024, Chamados me levaram a diálogos com a filosofia da TEIA*, através dos Círculos Sagrados de Saúde*: fontes de reconexão com sabedorias ancestrais e antigas tradições vivenciadas em medicinas naturais (folhas, raízes, sementes); resgates de herança psíquica familiar e exercícios terapêuticos libertários. Cada encontro é um ato de amor, de acolhimento e aprendizagem. Através de simbologias, aprofundam-se Reflexão/Ação. Vivenciam-se aspectos primordiais da cura e da sobrevivência humana: sabedorias indígenas, espiritualidade Afro-Brasileira centradas na cura coletiva, além do grande respeito à Mãe Terra. Essa mística educativa acontece no Cóio das Utopias*, em cada Lua Cheia. São momentos de troca, de autocura, união, acolhimento e reconexão à essência da Vida. Vozes se unem em celebrações: danças, cantos, meditações e estudos de sabedoria infinita... Sopros de Libertação, Esperançamentos, Reivindicação, Saúde, Espiritualidade, Confiança chegam como despertares à auto-organização, ao equilíbrio, à resiliência, à unidade na diversidade, ao acolhimento... Enfim, à paz interior!”

 

Há muito a ser relatado sobre Irmã Maria José Belém... Tempo e espaços são limitados ao volume de nutrientes libertários. No entanto, a semeadura segue. 

 

O rasgo de luz trazido nas palavras da Sagrada Guerreira nos alinha aos “sonhos proféticos” de Willoya Brown - GuerreirXs do Arco-Íris: Missionária Autêntica, Empenhada e Comprometida com “modos justos, dignos e amorosos de existencialidade”. E na mistura das tonalidades militantes, Maria José, em plena sintonia com a Sagrada Espiritualidade, cria arcos luminosos entre o céu e a terra, anunciando o Bem-Viver Universal. 

 

Falares de casa

Agente Laranja – Herbicida desfolhante químico usado pelos Estados Unidos durante a guerra contra o Vietnã (1961-1970).

Bagos – No popular: resíduos maiores que ficam na peneira durante o processo de filtragem.     

Barraqueiro – Pequeno comerciante que atua em barracas durante festas populares.

Círculos Sagrados de Saúde - Quefazeres comunitários; estratégias dialógicas de construção da Teia da Vida. “Saúde é todo mundo se ajudando a viver bem”. 

Cóio das Utopias - “Refúgio de construção de esperançamentos”. Rua Tucumã, 62, Bairro Tonzinho Saunier, Parintins/AM.

Cunhantã – Do Tupi = (kuñata-i) – menina, criança, garota.

FENAME – Fundação Nacional de Material Escolar

Língua-de-Sogra - brinquedo de sopro que faz um barulhinho. O nome advém da fama de que sogras são linguarudas e exageram nas falas.

KALIL GIBRAN - Mensagem de Jesus de Nazaré transmitida por José de Arimateia. In Gibran - Jesus o Filho do Homem. Editora Martin Claret/SP. 1928 

MEB – Movimento Eclesial de Base

MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização

TEIA –Teia de Educação Socioambiental e Interação em Agrofloresta. Célula organizativa da Articulação Parintins Cidadá (Parintins/AM)

 

Maria de Fátima Guedes Araújo. Caboca das Terras Baixas da Amazônia. Educadora popular, pesquisadora de saberes popular/tradicionais da Amazônia. Licenciada em Letras pela UERJ (Projeto Rondon/1998). Com Especialização em Estudos Latino-americanos pela Escola Nacional Florestan Fernandes/ UFJF. Fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS). Autora das obras Ensaios de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage, Retalhos de Cidadania e do Dicionário Falares Cabocos (Organizadora).